Mrs Woolfway

As a woman I have no country. As a woman my country is the whole world.

Como mulher eu não possuo país. Como mulher, meu país é o mundo todo. 

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NPG Ax142604; Virginia Woolf (nÈe Stephen) by Lady Ottoline Morrell                                                                                                                           Virginia e amigos, 1926.

Em 28 de março de 1941, há 74 anos, falecia Virginia Woolf, a enigmática e feminista escritora britânica. Nasceu em Londres, no dia 25 de janeiro, 1882, como Adeline Virginia Stephen – a menina que se tornaria mais tarde uma das mais célebres romancistas dos séculos XX e XXI, assim como também uma notável ensaísta, crítica e editora.

Filha do segundo casamento do historiador, escritor, ensaísta e biógrafo Sir Leslie Stephen (1832 – 1904) com Julia Prinsep Jackson (1846 – 1895),tinha sete irmãos (três irmãos do casamento dos seus pais e quatro meio-irmãos). Virginia frequentou desde muito pequena círculos literários que a influenciariam mais tarde – a elite intelectual e artística da época, como Alfred Tennyson, Thomas Hardy, Henry James e Edward Burne-Jones, frequentava os saraus de Leslie Stephen.

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A pequena Adeline Virginia, aos dois anos de idade, e sua mãe Julia, 1884.

A escritora só aprendeu a falar depois dos 3 anos. Foi educada em sua casa, por professores particulares e seu pai – a menina desde cedo era uma grande admiradora do trabalho literário dele como editor do Dictionary of National Biography e adoradora de sua enorme biblioteca particular, tendo decidido desde muito jovem tornar-se escritora. Antes dos 13 anos, depois de várias leituras, buscando um estilo próprio, copiou Nathaniel Hawthorne. No mesmo ano perdeu sua mãe , o que ocasionou o seu primeiro colapso mental – a jovem teria no futuro colapsos recorrentes em vários estágios da vida. Sua meia irmã, Stella, foi quem tomou conta da casa na ausência da mãe, mas faleceu dois anos mais tarde, em razão de uma peritonite  em sua lua de mel, após casamento com Jack Hills. Aos 16 anos, apaixonou-se por uma colega, Madge.

Posteriormente, se apaixona por outra mulher, Violet Dickinson. Por incentivo de Violet, começa a escrever críticas (não assinadas) pelo jornal The Guardian. Um mês depois, em 22 de fevereiro, seu pai morre de câncer. Teve no período, uma sequência de desentendimentos com sua irmã Vanessa, e após semanas da morte de Leslie, sofreu seu segundo episódio de colapso mental, tenta suicídio se jogando de uma janela, que era muito baixa. O colapso mental perdurou por meses até o findar de 1904.

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Virginia e Leslie Stephen.

Num jantar no dia 17 de novembro do mesmo ano, Virginia conheceu o amigo de seu irmão mais velho, Thoby, que estudava na Trinity College em Cambridge: o seu futuro marido, Leonard Woolf, que na época estudava direito. Virgínia foi no mesmo período integrante de um comentado grupo literário, o “Grupo de Bloomsbury” – círculo de intelectuais que a partir da Primeira Guerra Mundial, se posicionou contra as tradições literárias, políticas e sociais da Era Vitoriana. Com a escritora, participaram, dentre outros, os escritores Saxon Sydney-Turner, David Herbet Lawrence, Roger Fry e Duncan Grant,o próprio Leonard Woolf; os historiadores e economistas Lytton Strachey e John Mayanard Keynes; e os críticos Clive Bell e Desmond McCarthy e sua irmã Vanessa.

NPG Ax140432; Lady Ottoline Morrell; Maria Huxley (nÈe Nys); Lytton Strachey; Duncan Grant; Vanessa Bell (nÈe Stephen) by Unknown photographer

Grupo de Bloomsbury- da esquerda para a direita: Lady Ottoline Morrel, Maria Nys (futura esposa de Aldous Huxley), Lytton Strachey, Duncan Grant e Vanessa Bell.

Em 20 de novembro de 1906, Thoby, o irmão mais velho de Virginia,  morreu pouco antes de completar 26 anos (contraiu febre tifóide numa viagem à Grécia). Virgínia sofreu nova crise mental. Pouco depois, Vanessa ficou noiva de Clive Bell, eles se casaram em sete de fevereiro de 1907 e permaneceram na casa em Gordon Square. Virginia não gostou do casamento, e resolvou se mudar do local (que morava com Vanessa) para morar com seu irmão mais novo, Adrian Stephen, para uma casa no número 29 da Fitzroy Square, que também era localizada no distrito de Bloomsbury.

A partir de 1907,  deu aulas de literatura inglesa e história em Morley College – instituição de ensino para adultos trabalhadores. Em fevereiro de 1909, Lytton Strachey pediu Virginia e ela aceitou, mas logo os dois em comum acordo desistiram da ideia. Os amigos e parentes cobravam de Virginia um casamento. Irritada, Virginia escreveu à amiga Violet: “Eu queria que todo mundo não me ficasse repetindo que devo casar. Será uma irrupção da rude natureza humana? Eu acho repulsivo”. Apesar de sua ira, os amigos e parentes continuaram insistindo para que ela se casasse.

Entre 1907 e 1908, Virginia escreveu “Melymbrosia”, mais tarde publicado como “The Voyage Out” (este primeiro romance de Virginia foi editado no Brasil sob o título de “A Viagem”).  Virginia queimou sete versões de “The Voyage Out”, ela não publicou ficção até os 33 anos.


O curioso caso de Dreadnought

Em 10 de fevereiro de 1910, Virginia, junto com Duncan Grant, seu irmão Adrian Stephen e outros três integrantes do “Bloomsberries” organizaram um protesto pelo qual mais tarde sofreram inquérito policial. Eles viajaram para Weymouth fantasiados como uma delegação de quatro diplomaras abissínios, num vagão especial a partir de um falso telegrama enviado, pelo qual conseguiram visitar o navio de guerra “Dreadnought”, a convite do Comandante Supremo das Forças Armadas britânicas. Os “Bloomsberries” queriam ridicularizar o “Empire”.

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Virgínia está à esquerda, de barbada abissínia.


Casou-se tardiamente, aos parâmetros da sociedade inglesa do início do século XX – aos trinta anos de idade, no ano de 1912. Leonard se apaixonou por Virginia, “doce e perdidamente”, segundo a biografia de seu sobrinho, filho de Vanessa, Quentin Bell, a família Stephen não avisou Leonard dos problemas de saúde mental de Virginia, com receio que ele pudesse desistir do casamento. Leonard admirava muito Virginia, pela grande capacidade intelectual, e não se preocupava com a frigidez sexual da escritora (que segundo muitos indícios, se traumatizou com possíveis bolinadas que levou no início da adolescência de seu meio-irmão George). Leonard esteve ao lado da escritora por toda sua vida, até o suicídio de Virginia no Rio Ouse, aos 59 anos, em 1941.

Nos primeiros anos de casamento trabalharam  para inaugurar a famosa editora Hogarth Press, em 1917. Horgarth revelou grandes talentos da literatura mundial, como T.S. Elliot e Katherine Mansfield e o pai da psicanálise, Sigmund Freud.

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Frente da casa e da editora de Leonard e Virginia em Londres.

Virginia finalmente termina “The Voyage Out” e o entrega à editora. Cada dia mais doente, pensa que a cura estaria no suicídio. Toma 6,5 gramas de veronal e por pouco não morre. Quentin Bell registra que até 1913, Freud era pouco conhecido na Inglaterra. Mas Virginia não se interessava muito por Freud, já Leonard achava que o conhecimento das ideias de Freud poderia ser útil no tratamento da escritora. “The Voyage Out” foi publicado em março de 1915 e foi muito bem aceito pela crítica especializada: “Eis finalmente um livro que chega ao mesmo patamar de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, embora por um caminho diferente”, escreveu Edward Morgan Forster, para o “Daily News”.

Quentin Bell, disse que no início de sua carreira, Virgínia estava sempre imaginando que, para o mundo exterior, [seus romances] pudessem parecer simplesmente doidos ou, pior ainda, fossem realmente doidos, seu horror à zombaria rude do mundo continha o medo mais profundo de que sua arte, e por isso ela mesma, fosse uma espécie de impostura, um sonho imbecil sem valor para os outros. Por isso, para ela, uma nota favorável valia mais que o mero elogio; era uma espécie de certificado de sua sanidade mental.

Quentin Bell e os outros biógrafos revelam algo curioso: Virginia escrevia um romance vigoroso (como “As Ondas”) e, em seguida, um romance mais leve e fácil (como “Os Anos”). Parece que tal artifício visava tranquilizar os seus nervos e, ao mesmo tempo, testar novos caminhos para o romance. “O romance peso-pesado é sucedido por um livro peso-pluma — que ela chamava uma piada”, só que Quentin Bell não acha que “Noite e Dia” seja uma piada. Não acha o livro bom. Mas não concorda que seja totalmente ruim.

O manuscrito de “Ulysses”, de James Joyce, foi oferecido à editora de Virginia, que não pôde ou não quis publicá-lo. Quentin Bell tenta explicar: “Era uma obra que Virginia não podia rejeitar nem aceitar. O poder e a sutileza da obra eram evidentes o bastante para despertar a admiração dela e, sem dúvida, inveja. Parecia-lhe ter uma espécie de beleza, mas também um brilho rude, arguto, de sala de fumantes. Joyce usava instrumentos parecidos com os dela, e isso era doloroso, pois era como se a pena, sua própria pena, tivesse sido arrancada de suas mãos e alguém rabiscasse com ela a palavra fodano assento de um vaso sanitário”.

Virginia “também sentia”, segundo Quentin, “que Joyce escrevia para um pequeno grupo, e, quando se refere a ele, escreve ‘essa gente’ — como se o classificasse tal qual Ezra Pound e não sei que outras figuras do ‘submundo’. A reação dela talvez seja significativa; a rudeza gratuita e impudente de Joyce fazia-a sentir-se, súbito, desesperadamente ‘uma dama’. Mesmo assim foi perspicaz o bastante para ver que era algo digno de ser publicado; era claro, também, que estava absolutamente além da capacidade técnica da Hogarth Press”. Para mim, era o lado mundano de Joyce que não agradava Virginia. Ao contrário de Joyce e de Proust, não sacava muito do lado “sujo” da vida.

Em 1919, Virginia publica “Noite e Dia”. A crítica não gostou. E.M. Forster (1879-1970) e Katherine Mansfield (1888-1923) odiaram. Mas Forster, amigo, foi elegante e discreto. Disse que o livro não era melhor que “The Voyage Out”. (Forster mais tarde ficou chateado com algumas críticas ferinas de Virginia.) Mansfield foi dura: “Noite e Dia” era “uma mentira da alma. Falando sobre esnobismo intelectual — o livro dela fede a isso. (Mas não posso dizê-lo.) É muito longo e cansativo”. Virginia, que não sabia assimilar criticas, ficou abalada.

Mas Virginia se curava dos petardos da crítica de um modo extraordinário: no lugar de ficar bloqueada, produzia mais, e melhor. Se o romance anterior fosse considerado ruim, até pelos amigos que adorava, como Forster, procurava escrever outro melhor, mais inventivo. Foi o que o ocorreu depois de “Noite e Dia”. Em 1922, publicou pela Hogarth Press “O Quarto de Jacob”. T.S. Eliot festejou: “Você se libertou de qualquer compromisso com o romance tradicional e seu talento original. Parece-me que construiu uma ponte sobre certa lacuna que existia entre seus outros romances e a prosa experimental de ‘Monday or tuesday’, conseguindo um sucesso notável”.

“O Quarto de Jacob”, para Quentin Bell, marca o inicio de sua maturidade e fama. Em 1925 Virginia publicou “Mrs. Dalloway”, que agradou à crítica. Forster elogiou “Mrs. Dolloway”. Thomas Hardy leu “The Commom Reader” com prazer. Virginia ficou maravilhada. Entre 1925 e 1928, Virginia lança “Passeio ao Farol” e concebe “As Ondas”. Nesse período ela conhece Vita, a sua grande paixão. Vita era lésbica, mas casada, como Virginia. Quentin Bell é discreto e diz pouco sobre o assunto. Tudo indica que as duas não chegaram a ter um caso no sentido moderníssimo. Vita escreveu para Virginia: Você gosta mais das pessoas pelo cérebro do que pelo coração. Fosse hoje, o texto de Vita teria acréscimo: Você gosta mais das pessoas pelo cérebro do que pelo coração e pelo corpo.

Quem leu “Orlando” sabe que Vita é Orlando. Para Quentin Bell, Orlando é o único dos romances de Virginia que se aproxima da emoção sexual, ou antes, homossexual; pois, enquanto o herói/heroína sofre uma transformação física, sendo no começo um esplêndido jovem e depois uma linda dama, a metamorfose psicológica é muito menos completa. O livro vendeu bem. Mas Orlando, sabia Virginia, não era um grande livro. Julgamento que os leitores de hoje não partilham, sobretudo por que as questões sexuais se tornaram mais importantes, na avaliação do romance, do que as literárias.

Em 1931, Virginia, a mulher que adorava charutos, publica “As Ondas”, para os críticos, sua obra-prima. Leonard Woolf, que sempre opinava, criticamente, sobre os livros de Virginia, disse: O livro é uma obra-prima, a melhor das suas obras. Ela adorou. Leonard era suspeito, até por que conhecia a fragilidade emocional de Virginia, mas era, ao mesmo tempo, prudente, justo e rigoroso.

Na década de 30, alguns críticos atacam Virginia, deixando-a desequilibrada emocionalmente. O mais virulento, Wyndham Lewis, escreve: Ela é sobremodo insignificante. Ninguém mais a leva a sério. Os críticos de esquerda não atacavam Virginia. Stephen Spender e Cecil Day-Lewis (pai de Daniel Day-Lewis, ator de “A Insustentável Leveza do Ser” e “Meu Pé Esquerdo”) gostavam de sua obra.

Em 1937, Virgínia pública “Os Anos” e sente a loucura chegando. Leonard achou o livro ruim, mas ficou calado, ou melhor, temendo que Virginia se matasse, mentiu: Acho que é extraordinariamente bom. Virginia sabia que o livro era ruim. O economista Keynes gostou do livro, de forma irrestrita. Em 1939, Virginia foi ver Freud, que estava exilado em Londres. Ele teria impressionado Virginia como um homem alerta. Mas torto encarquilhado muito velho e a velha chama agora bruxuleante. Freud disse a Virginia e Leonard que seria necessária uma geração para eliminar aquele veneno [o nazismo de Hitler].

Por causa da Segunda Guerra Mundial, Leonard e Virginia Woolf chegaram a pensar em suicídio. Obtiveram até uma dose letal de morfina. Mas, com Londres bombardeada, Virginia deixou de falar em suicídio. Numa carta a Ethel Smyth, escreveu: … o que tocou e na verdade feriu o meu coração em Londres [durante os bombardeios dos nazistas] foi aquela velha mulher, suja de fuligem nos aposentos dos fundos, preparando-se, depois de um ataque aéreo, para enfrentar o próximo… E também a paixão da minha vida, a cidade de Londres — ver Londres em escombros, isso também atingiu meu coração.

No início de 1941, Virginia estava desesperada, louca. Mesmo assim tentou convencer a médica Octavia Wilberforce, uma amiga, de que não estava doente mentalmente. Mas confessou partes de seus medos. Medos de que o passado voltaria, de que nunca mais conseguiria escrever.

É triste e pungente como Quentin Bell fala do fim de sua tia escritora: Na manhã de sexta-feira, 28 de março, um dia claro, luminoso e frio, Virginia foi como de costume ao seu estúdio no jardim. Lá, escreveu duas cartas, uma para Leonard e outra para Vanessa — as duas pessoas que mais amava. Nas duas cartas explicava que vinha ouvindo vozes e acreditava que nunca mais ficaria boa; não podia continuar estragando a vida de Leonard. Ela colocou o bilhete sobre a lareira da sala de estar, e cerca de 11h30 esgueirou-se para fora, levando sua bengala de passeio; e atravessou os prados até o rio. Leonard acreditava que ela já havia feito uma tentativa para se afogar: assim, teria aprendido com o fracasso, e estava decidida a não falhar de novo. Deixando a bengala na margem, ela esforçou-se para pôr uma grande pedra no bolso do casaco. Depois encaminhou-se para a morte, ‘a única experiência’, dissera um dia a Vita, ‘que nunca descreverei’.

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A Song of Myself, a Song of Whitman.

Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,
E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.”

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Há 126 anos atrás, no dia 26 de março de 1892 morria Walt Whitman, um dos maiores poetas de todos os tempos. Em minha humilde opinião, o maior poeta estadunidense já vivo. Whitman nasceu em Huntington no dia 31 de maio. Além de poeta trabalhou como ensaísta e jornalista. O primeiro grande feito de Whitman foi provar a possibilidade de realizarmos versos livres sem nos esquecermos da riqueza que deve pautar uma construção poética, em seu conjunto das palavras, na essência e na profundidade de nossa mensagem ao leitor. Leminski dizia que Whitman era o grande revolucionário das américas, como Maiakovsky era o grande poeta revolucionário russo.

Frequentou até os onze anos uma escola pública, tendo começado a trabalhar muito cedo, aos doze, como aprendiz em uma tipografia, passou também na juventude a impressor em NY e entre 1836 e 1839 lecionou, tendo também participado da campanha presidencial de Van Buren en 1840. Entre seus feitos, editou um jornal diário, o Aurora, também o Evening Tatler, tendo sido jornalista também do Long Island Star e editor do Daily Eagle e Freeman.

Foi no ano de 1855 que publicou uma das maiores obras primas mundiais: Leaves of Grass. Leaves era composto de versos livres, longos e também brancos, dos quais se imitava os ritmos da  própria fala. A obra poética de Whitman centra-se em Leaves, no qual o poeta ao longo da vida o foi complementando – a primeira edição contava com apenas 12 poemas… o livro  teve nove edições publicadas durante a vida do poeta.

Muitos pensariam positivamente, que, por se tratar de uma obra inovadora e impactante, poderia ter sido uma obra comentada, bem recebida… mas o livro foi na realidade bem mal recebido pela maioria das pessoas, o que não atingiu o poeta, que seguiu no desejo de sua vida: completar como uma grande obra o Leaves of Grass. A segunda edição foi composta por 32 poemas, intitulados e numerados. Entre eles, um dos mais célebres do Whitman: encontrava-se Poem of Walt Whitman, an American, que haveria de se chamar posteriormente Song of Myself.

Entre 1863 trabalhou para o Exército servindo como voluntário em hospitais militares. Trouxe da guerra marcas de envelhecimento e uma experiência que marcaria profundamente sua escrita.  Publicou no ano seguinte o livro “Drum-Taps”, uma reunião de 53 poemas sobre a guerra civil. Em 1867 foi publicada a quarta edição de Leaves, com mais 8 novos poemas. A quinta edição  teve uma segunda tiragem que incluía “Passage to India” e mais 71 poemas. Whitman sofreu no ano de 1873 uma paralisia parcial, a mãe  do poeta morreu um tempo depois, ele decidiu se mudar de Washington para Camden, New Jersey, com o irmão George. Em 1876 publica a sexta edição de Leaves, agora em dois volumes. No ano de 1880, foi cancelada as revisões da sétima edição, por ameaças que recebeu do Promotor Público, que considerava a obra de Whitman indecente. Esta edição só foi retomada anos mais tarde, incluindo a obra mais vinte poemas inéditos.

Whitman sofreu em sua vida toda uma pobreza financeira que se atenuou nos últimos anos, sobrevivendo a custas de amigos e admiradores americanos e europeus, que com o passar das décadas passaram a reconhecer a genialidade do poeta. Em 1888 sofreu um novo ataque de paralisia, mas viu também publicados 62 novos poemas sob o título de “November Boughs”  – também foi publicado “Complete Poems and Prose of Walt Whitman”. A oitava edição de Leaves apareceu em 1889 e a nona edicação, foi publicada no mesmo ano da morte de Whitman, 1892. Foi sepultado em Camden. Cinco anos depois foi publicada em Boston a décima edição de Leaves of Grass (1897), a que se juntaram os poemas póstumos “Old Age Echoes”.

Os poemas do Whitman chocaram o seu tempo, atravessou o nosso, cortando velhos estigmas, superando velhas verdades, libertando os espíritos para contemplação dos bens natuais, e dos sentimentos que são a vida em termos únicos e íntimos de cada um de nós. Com a sua obra, Leaves of Grass, temos uma vida dedicada a um tentativa de nos dizer para caminhar junto a liberdade, visionando a unidade cósmica, a evolução que podemos intentar.

Abaixo, trecho inicial de Song of Myself, com tradução de Luciano Alves Meira (2005).

Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.
Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.
Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.
Crenças e escolas quedam-se dormentes,
Retraindo-se por hora na suficiência do que são, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

I CELEBRATE myself, and sing myself,
And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.

I loafe and invite my soul,
I lean and loafe at my ease observing a spear of summer grass.

My tongue, every atom of my blood, form’d from this soil,
this air,
Born here of parents born here from parents the same, and
their parents the same,
I, now thirty-seven years old in perfect health begin,
Hoping to cease not till death.

Creeds and schools in abeyance,
Retiring back a while sufficed at what they are, but never
forgotten,
I harbor for good or bad, I permit to speak at every hazard,
Nature without check with original energy.

The Song Of Gregory

Hoje nascia um dos mais célebres poetas estadunidenses: Gregory Corso.

Se estivesse vivo, completaria 85 anos.

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Nunzio Corso nasceu em 26 de março de 1930, tendo acrescentado o pré-nome “Gregory” pela anunciação bíblica do anjo Gabriel que muito gostava, e de Hermes, uma divindade greco-romana mensageira. Corso teve uma infância muito conturbada e uma juventude miserável, entre as ruas e presídios. Depois que sua mãe Michelina, uma imigrante italiana,  o entregou a adoção com um ano de idade, ele percorreu até os onze anos cinco lares adotivos diferentes,  no qual, o pai biológico o visitava raramente. De repente tornou-se um menor abandonado pelas ruas da Little Italy, dormia em metrôs e terraços, dependendo da estação do ano. Aos treze anos, um vizinho do barraqueiro que lhe ajudava em troca de alguns favores pediu que ele fizesse a entrega de uma torradeira, mas Corso a vendeu para alguém que passava no caminho e com o dinheiro comprou: camisa branca e uma gravata, indo assistir ao filme “The Song of Bernadette” – o tema místico, sobre a aparição da Virgem Maria à Santa Bernadete de Lourdes, tomou corpo em sua poesia posteriormente. Foi preso pelo pequeno delito, solto e preso novamente, quando invadiu o escritório de seu tutor para dormir no inverno…  e aos dezoito anos, furtou um terno. Teve que pagar pena de três anos na Clinton State Prison. Corso, futuramente, sempre expressaria agradecimento a Clinton State por torná-lo  poeta  – o seu segundo livro de poemas, “Gasoline” ,é dedicado a Clinton State.

Na Clinton conheceu Charles “Lucky” Luciano, chefe da máfia que inspirou Mario Puzo e Francis Coppola no filme “O Poderoso Chefão”. Richard Biello, outro chefão da máfia perguntou certa vez ao jovem Corso de qual família de criminosos ele era : “Eu sou independente!” Numa confusão com outros presos Biello defendeu Corso, dizendo que ele já não era tão independente assim, e o poeta então passou à proteção da máfia. Corso ficou na mesma cela de Charles “Lucky” – enquanto aprisionado, Lucky levou uma extensa biblioteca para a prisão. Foi nesta cela que Corso começou a escrever poesia e passou a estudar diversos temas, entre os clássicos gregos e romanos, enciclopédias e dicionários. Com vinte e um anos foi solto, arrumou emprego num dos bares lésbicos do Greenwich Village, o “Pony Stable Inn”.

Certa noite um estudante da Columbia University,  sir Allen Ginsberg, compareceu ao Pony Stable, se interessou por Corso e o convidou para tomar uma cerveja por ali, Corso mostrou-lhe alguns poemas. Ginsberg adorou a poesia de Corso e imaginou também se ele não seria homossexual,  logo percebendo que não. A história engraçada vem logo em seguida: tenho lido um poema que descrevia uma mulher que tomava banhos de sol numa janela, do outro lado da rua, Ginsberg percebeu que a mulher poderia ser a sua ex-namorada. Foi então encontrar a ex, perguntando se ela aceitaria fazer sexo com Corso. Ela concordou, mas Corso, ainda virgem, ficou nervoso e fugiu. Corso e Ginsberg passaram a ser amigos e rapidamente ele  ingressou no círculo Beat, sendo adotado por seus líderes (Jack Kerouac e Allen Ginsberg).

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Allen Ginsberg, Gregory Corso, on Avenue C near Ginsberg’s E. l0th Street apartment, New York City, fall l973.

Gregory Corso em sua poesia foi muito influenciado por Shelley, Marlowe e Chatterton ( “A Defence Of Poetry”, de 1840, de Shelley, e sua teoria de ênfase na habilidade do impulso poético genuíno deixava Corso boquiaberto), o poeta desenvolveu com o tempo poesia consistente, com os próprios princípios da literatura Beat: uma poesia como   veículo para as transformações, numa tentativa de estimular novas maneiras de vivência na sociedade, com a  revolução dos espíritos.

Logo após a morte de Ginsberg, Corso ficou muito deprimido… Nos últimos anos de vida nunca autorizou qualquer biografia, mas permitiu um filme (muito interessante e bem realizado) “Corso: The Last Beat”, de Gustave Reininger. Reininger conseguiu encontrar a mãe biológica de Corso, que se tornou íntima rapidamente do poeta, que declarou que ter encontrado a mãe completou a sua vida, o salvando de um ciclo muito complicado.

Ele morreu em Minnesota, em 17 de janeiro de 2001, mas suas cinzas foram depositadas no “English Cemetery”, em Roma, numa tumba bem em frente a de seu ídolo, Shelley, e perto de John Keats.
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Abaixo, três poemas de Gregory Corso:


I Am 25
With a love a madness for Shelley
Chatterton Rimbaud
and the needy-yap of my youth
has gone from ear to ear:
I HATE OLD POETMEN!
Especially old poetmen who retract
who consult other old poetmen
who speak their youth in whispers,
saying:–I did those then
but that was then
that was then–
O I would quiet old men
say to them:–I am your friend
what you once were, thru me
you’ll be again–
Then at night in the confidence of their homes
rip out their apology-tongues
and steal their poems.


Destiny

They deliver the edicts of God
without delay
And are exempt from apprehension
from detention

And with their God-given
Petasus, Caduceus, and Talaria
ferry like bolts of lightning
unhindered between the tribunals
of Space & Time

The Messenger-Spirit
in human flesh
is assigned a dependable,
self-reliant, versatile,
thoroughly poet existence
upon its sojourn in life

It does not knock
or ring the bell
or telephone
When the Messenger-Spirit
comes to your door
though locked
It’ll enter like an electric midwife
and deliver the message

There is no tell
throughout the ages
that a Messenger-Spirit
ever stumbled into darkness



To a downfallen rose

When I laid aside the verses of Mimnermus,
I lived a life of canned heat and raw hands,
alone, not far from my body did I wander,
walked with a hope of a sudden dreamy forest of gold.
O rose, downfallen, bend your huge vegetic back;
eye down the imposter sun…in winter dream
sulk your rosefamed head into the bile of golden giant,
ah, rose, augment the rose further still!
whence upon that self-created dive in Eden
you blossomed where the Watchmaker of Nothingness
lulled,
your birth did cause bits of smashed night to pop,
causing my dreamy forest to unfold.
Yes, and the Watchmaker, his wheely-flesh
and jewelled-bones spoiled as he awoke,
and in the face of your Somethingness, he fled
waving oblivious monks in his unwinded hands.
The sun cannot see upheaved spatics, the tennis of Venus
and the court of Mars sing the big lie of the sun,
ah, faraway ball of fur, sponge up the elements;
make clear the trees and the mountains of the earth,
arise and turn away from the vast fixedness.

Rose! Rose! my tinhorneared rose!
Rose is my visionic eyehand of all Mysticdom
Rose is my wise chair of bombed houses
Rose is my patient electric eyes, eyes, eyes, eyes,
Rose is my festive jowl,
Dali Lama Grand Vicar Glorious Caesar rose!

When I hear the rose scream
I gather all the failure experiments of an anatomical empire
and, with some chemical dream, discover
the hateful law of the earth and sun, and the screaming
rose between.



Ode marítima

A quebra de uma onda não pode explicar todo o mar

—Vladimir Nabokov

Painting by Romina Meric1

No manso e disforme das veias

Um mantra ensaio, cadente

Ao mar que me é revelado.

Alturas, usuras, compõem

os céus que dormem

sentados.

O monte respira, por vez,

intrínseco aos teus lados…

Pousam no mar, marinheiros

Amados, te espiam calados,

Pois em  tuas ondas estão

os recifes azulados.

Pintura de Romina Meric